“Uma água com gás, por obsequio!”, “Comi que nem um Abade” são frases que se complementam e são representativas de momentos, de um modo geral, diria, de conforto, bem estar, eventualmente bom convívio e sobretudo boa gastronomia. Pelo menos assim pode dar a entender!
Um Ser, Humano, saciado, bem alimentado ou até satisfeito, dirá por certo que estará bem no geral se o seu dia, o seu petisco, ou até a degustação do seu almoço ou jantar tiver sido agradável e reforçará que terá estado bem a gosto. Ora tudo isto demostra que a pessoa está, ou se sente, farta. Farto no significado de empanturrado, plenamente satisfeito, recheado, apinhado ou até abastado. Este é o contexto exemplificativo.
Pois bem, se a palavra Farto significa tanta coisa de bom, pelo menos na teoria, de abundante, de suprema riqueza (conteúdo) de contemplação de satisfação e até prazer (recordo o exemplo gastronómico) uma questão se levanta. Porque é que se usa a maioria das vezes esta palavra no sentido oposto? Pois que há uma tendência há. Vejamos…
“Estou farto deste programa”, diz alguém lá em casa. “Esta matéria é entediante, estou a ficar farto”, refere você vezes sem conta na academia quando a coisa não lhe está a correr de feição. “O telefone não para de tocar, é outra vez aquele fornecedor. Estou farto deste toque angustiante”, menciona a um colega de trabalho como desabafo de chatice momentânea. “Pareces aborrecido com o que lês, estás farto ou que?” questiona você a um dos seus sócios na empresa. E poderia continuar com exemplos que se encaixariam na perfeição em todos os ciclos da nossa envolvente.
Efetivamente há esta tendência, de usar a palavra “Farto” no sentido menos favorável, menos positivo, arriscar-me-ia a dizer que a usamos quase sempres nesse sentido e não na mais positiva vertente que lhe podemos encontrar. Descrevemos muitas vezes os momentos em que nos consideramos sem paciência, ou sem níveis de tolerância para alguma situação ou pessoa, como estando fartos. Da mesma forma quando estamos cheios, mas no sentido de saturados voltamos a utilizar a palavra farto e voltamos a usar no caso da insatisfação genérica com algo ou alguém. De facto a palavra “Farto” acompanha-nos diariamente pelos piores motivos a que a associamos.
Tudo na vida, cujo conteúdo, contexto, contenha carga mais negativa, nem que seja só no palavreado levar-nos-á a uma certa má disposição temporal. Não a má disposição de ter comido de mais, enfartado, mas sim pois o nosso cérebro irá continuar no futuro, tal como está a fazer naquele preciso momento, a associar a situação atual, para a qual rotulámos como “fartos” como habitual e sempre que algo se passar em seu redor com teor idêntico ira o seu cérebro preparar uma mensagem “Vais-te fartar”. Salvo melhor opinião, não me parece que queiramos continuar a estimular o cérebro com exercícios de associações de palavras a situações quando pode ser desnecessário. Parece-lhe?
Porque não, em vez de usar as palavras indiscriminadamente, só porque sim, as usamos de forma mais coerente com o contexto envolvente e da maneira que lhe parecer mais positiva? Use o farto por exemplo para o tal jantar, alimentação abastada e deliciosa ou para descrever algo abundante, que lhe traga satisfação e alegria como o exemplo generalista daquela praia que tem uma extensão de areal que “farta”, que enche, que abunda. Lembre-se das terras de cultivo que convém serem férteis para a agricultura, as mesmas tem de ser fartas. Recorde aquele amigo que vive longe e que já não vê há algum tempo cuja amizade é inesgotável, amizade farta portanto.

Para melhor gerir o seu consciente no que diz respeito á sua vida quotidiana, mas também profissional, académica ou empresarial, deixe os aborrecimentos que efetivamente o são, deixe o cansaço que parece sentir, deixe os assuntos entediantes, enfadonhos, sem graça, que o transtornam, deixe os mal entendidos que se acumulam, deixe de lado tudo aquilo que não é realmente importante e relevante para a sua vida, desvalorize e sobretudo não coloque palavras de conotação menos positiva nas situações. Sente-se, converse “consigo próprio” e procure outras (palavras), com outro sentido..
Em boa verdade o que estou a tentar dizer é para trazer o verdadeiro sentido à vida independentemente do ciclo onde está. Por certo a palavra a usar não será essa e você está a capturar energia menos positiva e a acumula-la. Cuidado. O exemplo passa pela panela de pressão: se não tiver por onde sair o vapor, estoira. O que uma ou mais palavras mal armazenadas no nosso consciente podem fazer!
“Eu aprendi a usar a palavra ‘impossível’ com o máximo cuidado.”
##Wernher von Braun##
…e eu também!



